sábado, 13 de fevereiro de 2010

"Eu sou Tu" com os jovens de Campos





Acontecem coisas extraordinárias numa Biblioteca! Se alguém me dissesse que ao entrar na “sala de adultos” encontraria um grupo de jovens descalços desenhando-se em grupo num papel de cenário estendido no chão, eu diria: é impossível! Pois...também foi possível o cheiro a chulé criativo... E tudo aquilo no meio das estantes recheadinhas de livros...
Partindo dos seus corpos, os alunos do 9º ano do Colégio de Campos criaram personagens em grandes folhas de papel de cenário e começaram a atribuir-lhes uma história. Vou esperar para ver o resultado final, não tenho outro remédio...
Mas o pior foi o meu embaraço quando apresentei alguns livros da colecção da biblioteca....Banda desenhada do Manara (um pouco picante), ainda por cima com os professores presentes...que vergonha... Não tenho culpa, faz parte do acervo da biblioteca, a par de CD , DVD e outros suportes diferentes prontos para empréstimo e, ainda por cima, gratuito! Aproveitei para apresentar “A invenção de Hugo Cabret”de Brian Selznik, um livro com umas belas ilustrações a lápis acompanhando uma história fantástica. (mas falaremos deste livro depois....)
Foi uma manhã divertida. Acho que esta turma de Campos é bastante fixe! (fui ver o significado de “fixe” ao dicionário e lá vinha: segura, forte, firme, fiável)

Suzy Lee


A obra de Suzy Lee (artista Coreana) tem estado em destaque no nosso projecto pela capacidade comunicativa que demonstra junto dos nossos adolescentes.
Saber ler as imagens (ilustrações) é uma competência leitora próxima da interpretação de textos. Assim, a sua obra permite trabalhar a memória e a anticipação leitora. Em "Onda" assim como no "Espelho" é recordada a nossa condição de leitores em contacto com o objecto livro: uma dobra de página passa a pertencer à história alterando o rumo narrativo ou uma folha que se transforma como por magia leitora num espelho. Saliento o apurado sentido estético destas ilustrações, explorando a economia de cor e a simplicidade do traço, tão ao contrário de alguma cacofonia cromática que tem invadido o nosso mercado livreiro.

O "Espelho" é talvez um livro mais "adolescente", lançando perguntas ao leitor, obrigando-o a interpertar toda um sequência de imagens. Fala da solidão, do amigo secreto ou de quem fala sozinho, da nossa auto-imagem e tantas outras pontas do novelo que se podem pegar quando mediamos o livro junto aos jovens. A alusão subtil ao teste de Rochard sugere um mergulho no autoconhecimento. Os dois livros estão publicados entre nós pela "Gatafunho".

Escrita mal comportada em Vila Nova de Cerveira

Mais uma vez, os alunos do Colégio de Campos (7ºA) estiveram na biblioteca pública para mais uma sessão do "Tásse a ler". De novo os desafios de escrita, desta vez a partir de um trecho sonoro...Vamos lá a ver o que vai sair daqui. O encontro começou com a apresentação do livro "Espelho" de Suzy Lee, continuou com o "Diário inventado de um menino já crescido" de José Fanha e com o filme/livro "História trágica com final feliz"de Regina Pessoa. Este deu muito que pensar pelo seu conteúdo interrogativo mas também resultou na conclusão de que existem diferentes suportes para o livro disponíveis na biblioteca. Há livros e obras de arte que nos fazem pensar ... então crescemos como leitores. Depois da nossa brincadeira em torno dos sons, ainda houve tempo para mexer nos livros, folhear, trocar impressões e requisitar para ler em sossego.

É mesmo para escrever?

-É sim! Temos que carregar a "máquina da poesia" com palavras.
-Pode ser um adjectivo?
-Sim. Já agora acrescenta também um verbo e um estado de alma.
Aos poucos a "máquina" ficou pronta para a poesia instantânea. Foi assim em Valença numa bela menhã de Novembro. Se escreveram poesia? Então não! Perguntem à bibliotecária escolar...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Confissões de um mediador do livro e da leitura

Estava tudo bem preparado para a intervenção do projecto em Melgaço. Mas, por alguma razão que desconheço, o agrupamento de escolas não aderiu à proposta do projecto "Tásse a ler". Assim, apareceram os alunos da escola profissional, gente variada, mais crescida e mais vivida: jovens com "espanto de viver"(como dizia José Gomes Ferreira). Duas turmas bem distintas. Uma com uma composição maioritariamente africana outra com uma maioria de mulheres (jovens). Como calculam, a escolha dos livros mudou radicalmente quando confrontada com estes jovens adultos (na sua maioria). Igualmente cresceu o grau de exigência no discurso e na escolha dos livros para estes leitores. Mas foi uma lufada de ar que entrou pela biblioteca, com vontade de requisitar livros e de se tornarem leitores habituais. Uns de origem São Tomense, outros crioulos de Cabo Verde, outros ainda de terras afastadas no Alto Minho e duas simpáticas miúdas brasileiras que completaram um quatro perfeito de Lusofonia ali, mesmo, onde o rio Minho se torna nosso.
Agora compete-nos reunir os autores para este público tão especial: Germano Almeida, Baltazar Lopes, Manuel Lopes e ainda o poeta Corsino Fortes para os Cabo-Verdianos e Marina Colassanti, Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário Quintana e Cecília Meireles para os nossos utilizadores do Brasil, sem esquecer Olinda Beja para os São-Tomenses ( de certo que faltam muitos mais...mas isto é só um primeiro passo). Tenho maior dificuldade em escolher livros para os nossos jovens do Vale do Minho... A juventude por aqui tem um sabor bem distinto do travo do sul. Mas, assim que conseguir entender o perfil do leitor que está na minha frente, estou certo que saberei encontrar na colecção um livro a sugerir: da banda desenhada à escrita humorística, do conto fantástico ao terror, dos livros de auto-ajuda á poesia profunda ou o romance escorreito na nossa bela e moldável lingua.
Mas não quero escolher sozinho.

domingo, 17 de janeiro de 2010

O beijo da truta


"Truta beija com Alma o hipopótamo". Foi assim que este aluno (7º C) fez a sua frase (poema) com humor, lembrando-nos que o riso pode ser o caminho para a leitura e para a escrita. Gosto muito da ilustração, ainda por cima feita em Paredes de Coura, terra de saborosas trutas... Lembro-me de ter falado aos nossos jovens sobre a dificuldade de fazer rir os outros com inteligência, que o digam os Gatos Fedorentos... Ao escolhermos livros para as nossas bibliotecas, deveremos ter em conta o humor, não o fácil mas sim aquele outro que nos faz rir de nós mesmos. A Ironia fina é uma pérola ao alcance de poucos.