quinta-feira, 4 de março de 2010

Sementes em Melgaço

Como se mede o sucesso de um projecto? Bem sei, com espírito científico numa avaliação cuidada, que no nosso caso está garantida. Mas há gestos simples da rede pública que podem potenciar o futuro na promoção do livro e da leitura e não cabem nas avaliações quantificadas. A EPRAMI (Escola Profissional privada) de Melgaço não tem biblioteca escolar no sentido em que todos nos habituámos a reconhecer um lugar escolar de leitura. Apenas um pequeno espaço com uma colecção diminuta. Pois, a Biblioteca Municipal de Melgaço decidiu dar apoio a esta estrutura educativa, que pelo seu estatuto, não pode actualmente aceder ao apoio da RBE. Existe já uma lista de livros a comprar e outros a emprestar. A escola começará a ter a sua oferta, paralelamente à rede pública. Nesta pequena utopia é fundamental o papel dos professores numa escola tão multicultural como a EPRAMI. Parabéns à bibliotecária por lançar as sementes.

Monção: O som das histórias


Uma espécie de ritual: todos sentados no tapete, mostro um livro e trocamos ideias. Nesta foto apresento o "Espelho" de Suzy Lee antes de lançar um novo desafio aos jovens de Monção: construir uma história a partir de um trecho sonoro executado com sons quotidianos. Um exercício que procura realçar a autonomia de cada um, o leitor diferente do outro que existe em nós; exactamente como nos livros, quando construimos imagens a partir de um argumento que nos é oferecido pelo escritor. Com os sons convocamos, igualmente, esse universo interior, compondo imagens de acordo com as nossas vivências.

Primeiro trecho. Tomemos como exemplo o trabalho do 7ºE. Vejam como as versões a partir da mesma fonte sonora são diferentes (a Cindy e a Raquel não têm a mesma opinião, embora existam pontos de contacto):

"Era uma vez uma senhora que estava a subir as escadas. Abriu a porta e fechou-a até que encontrou pessoas e falou com elas. Deu um beijo, bebeu água e depois começou às gargalhadas. Fechou a porta, desceu as escadas e foi à praia onde ouviu o barulho das gaivotas e do mar."

"Era uma vez mulher que ouviu uns ruídos e desceu para ver o que era. Foi a uma porta ver o que era, mas não era nada; foi a outra porta e ouviu vozes; depois, foi a outra porta e viu pessoas a rirem-se. Saiu e subiu outra vez; foi à varanda e ouviu o mar e as gaivotas. Depois foi tomar banho"

Ainda a versão da Catarina:

"Era uma vez uma mulher que andava de saltos altos no seu hotel. Desceu as escadas, abriu uma porta, ouviu os ingleses a rirem-se e a falarem. A seguir, a mulher beijou uma pessoa; feliz, abriu uma garrafa de vinho e embebedou-se.Em seguida, foi ao mar, ouviu as ondas a bater e gaivotas a piar"

Segundo trecho. De novo a Cindy e a Raquel

"Era uma vez muitas abelhas, que eram amigas de um sapo, que encontrou uma rapariga muito bela e jovem. Mas o sapo tinha uma característica muito especial: ele falava. O sapo apaixonou-se pela rapariga, e a rapariga por ele. Quando a rapariga beijou o sapo, ele transformou-se em rapaz. Pouco tempo depois, eles casam e várias pessoas batem palmas"

"Era um vez um sapo que andava a cantar, entretanto aparece uma mosca. O sapo enerva-se e come-a. Uma rapariga vê aquilo e beija o sapo. O sapo transforma-se num rapaz e a rapariga e o rapaz casam-se."

A Marta resolveu a coisa de outra maneira (os alunos tiveram pouco tempo para o desafio):

"Um certo dia ouviu-se um sino tocar, pardais a chiar e por um momento ficou tudo em silêncio. Logo a seguir, ouviu-se uma mosca e logo um sapo tratou do assunto.
Uma rapariga que passava lá perto viu o sapo e o sapo de repente deu um salto na tentativa de lhe dar um beijo. Então, o sapo imaginou o seu casamento com ela.
“ Seria um sonho ou realidade?” - pensou o sapo."

Claro que os alunos foram buscar à sua memória leitora a história do sapo/príncipe ifuenciando o texto. Tratei de lhes explicar o fenómeno que ocorria nas suas cabeças imaginativas. O difícil é abstrairmo-nos dessas memórias leitoras e criar algo novo.
Termino aqui com 3 versos da Marta, feitos a partir da "máquina da poesia"
O homem corre do dia triste.
O menino joga na chuva fria.
A borboleta voa no céu profundo

quarta-feira, 3 de março de 2010

Alunos voluntários

Várias pessoas que passaram por este blog deixando o seu comentário: Cristina Taquelim (Biblioteca de Beja) e Paula Ferreira (Biblioteca de Tavira), comentando a escolha dos títulos para o projecto. Uma das ùltimas visitas, a propósito do Post "Reflexão em Monção") foi Jacqueline Duarte coordenadora do Centro de Recursos Poeta José Fanha sublinhando a importância da criação de um grupo de alunos voluntários: "Como coordenadora do Centro de Recursos Poeta José Fanha atesto da grande importância do apoio destes alunos. Num tempo em que tanto se fala de voluntariado, estes alunos abdicam de parte da sua hora de almoço para nos ajudarem no atendimento/serviço de referência, inclusive no apoio aos colegas." Penso ser esta uma boa prática a divulgar aqui no Vale do Minho.

Os rapazes do CEF de electricidade

Não foi fácil o começo da oficina "Eu sou Tu" no Centro Cultural de Paredes de Coura. Alguns "choques eléctricos" marcaram o início da actividade: desconhecia que era suposto a turma ter a tarde livre. Também eu ficaria impaciente se já tivesse um "programa" preparado para aquela tarde. Mas afinal a turma demonstrou possuir grande imaginação e capacidade de trabalhar em equipa. Claro que é um pouco desconcertante, chegar ali um carequinha e descalçar o pessoal todo, ler textos e propor que nos deitássemos sobre folhas de papel de cenário, ainda por cima com o objectivo de inventar histórias... Mas para quem tem capacidade de electrificar uma vivenda inteira, construir uma história foi fácil. Como não tenho fotografias daquela tarde, deixo aqui o "link" da Biblioteca Escolar: http://bepcoura23s.blogspot.com/2010/02/eu-sou-tu.html
O apoio da professora bibliotecária e dos outros professores tem sido fundamental para o desenvolvimento do projecto "Tásse a ler" em Paredes de Coura. Vale a pena lutar para que estes jovens tenham cada vez mais acesso à produção cultural e sobre esta reflitam.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

"Eu sou Tu" com os jovens de Campos





Acontecem coisas extraordinárias numa Biblioteca! Se alguém me dissesse que ao entrar na “sala de adultos” encontraria um grupo de jovens descalços desenhando-se em grupo num papel de cenário estendido no chão, eu diria: é impossível! Pois...também foi possível o cheiro a chulé criativo... E tudo aquilo no meio das estantes recheadinhas de livros...
Partindo dos seus corpos, os alunos do 9º ano do Colégio de Campos criaram personagens em grandes folhas de papel de cenário e começaram a atribuir-lhes uma história. Vou esperar para ver o resultado final, não tenho outro remédio...
Mas o pior foi o meu embaraço quando apresentei alguns livros da colecção da biblioteca....Banda desenhada do Manara (um pouco picante), ainda por cima com os professores presentes...que vergonha... Não tenho culpa, faz parte do acervo da biblioteca, a par de CD , DVD e outros suportes diferentes prontos para empréstimo e, ainda por cima, gratuito! Aproveitei para apresentar “A invenção de Hugo Cabret”de Brian Selznik, um livro com umas belas ilustrações a lápis acompanhando uma história fantástica. (mas falaremos deste livro depois....)
Foi uma manhã divertida. Acho que esta turma de Campos é bastante fixe! (fui ver o significado de “fixe” ao dicionário e lá vinha: segura, forte, firme, fiável)

Suzy Lee


A obra de Suzy Lee (artista Coreana) tem estado em destaque no nosso projecto pela capacidade comunicativa que demonstra junto dos nossos adolescentes.
Saber ler as imagens (ilustrações) é uma competência leitora próxima da interpretação de textos. Assim, a sua obra permite trabalhar a memória e a anticipação leitora. Em "Onda" assim como no "Espelho" é recordada a nossa condição de leitores em contacto com o objecto livro: uma dobra de página passa a pertencer à história alterando o rumo narrativo ou uma folha que se transforma como por magia leitora num espelho. Saliento o apurado sentido estético destas ilustrações, explorando a economia de cor e a simplicidade do traço, tão ao contrário de alguma cacofonia cromática que tem invadido o nosso mercado livreiro.

O "Espelho" é talvez um livro mais "adolescente", lançando perguntas ao leitor, obrigando-o a interpertar toda um sequência de imagens. Fala da solidão, do amigo secreto ou de quem fala sozinho, da nossa auto-imagem e tantas outras pontas do novelo que se podem pegar quando mediamos o livro junto aos jovens. A alusão subtil ao teste de Rochard sugere um mergulho no autoconhecimento. Os dois livros estão publicados entre nós pela "Gatafunho".